Turmas de Acolhimento e o fascínio de aprender na diversidade

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Sabia que nas escolas portuguesas existem turmas dedicadas a alunos recém-chegados de outras partes do mundo, com diferentes línguas e culturas? Já se perguntou como estes alunos, muitas vezes sem dominar a língua portuguesa, conseguem integrar-se no nosso sistema de ensino? São as chamadas turmas de acolhimento, um espaço pedagógico único, onde a diversidade linguística e cultural é o ponto de partida para um processo de aprendizagem cheio de desafios, mas também de grandes oportunidades.

Por Belisanda Tafoi e Rosa Maria Faneca *

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O que faz de um professor um “bom” professor nestas circunstâncias tão especiais? Segundo os princípios do professor Pedro D’Orey da Cunha, um bom docente é aquele que, com paixão e entusiasmo, desperta nos alunos o gosto pelo conhecimento. Mas como se aplica isto a uma sala de aula onde os alunos mal falam a língua da escola? Será apenas a paixão pelo ensino suficiente para ultrapassar a barreira linguística? O fascínio pela aprendizagem, sem a confiança nas capacidades de cada aluno e o respeito pelo seu ritmo de aprendizagem, pode criar falsas expectativas.

Imagine entrar numa sala de aula onde não existem manuais escolares tradicionais. Os alunos, muitos vindos de outros países, cruzam olhares tímidos, questionando-se: “Como se aprende assim?”. A surpresa inicial transforma-se num desafio. Aqui, a aprendizagem é como o uso da borracha: apaga-se, reescreve-se e, ao longo do processo, o conhecimento vai-se construindo. Uns habituam-se mais depressa, outros demoram um pouco mais, mas todos reconhecem a importância de dominar novas competências numa realidade que está em constante mudança. E, pouco a pouco, os alunos ficam e aprendem.

A diversidade nas turmas de acolhimento não é apenas linguística, mas também cultural e emocional. Cada aluno carrega consigo a sua própria história, muitas vezes marcada por deslocações forçadas, por mudanças radicais na vida. Estas turmas recebem-nos em diferentes momentos do ano — setembro, novembro, janeiro, ou até abril — e transformam-se num espaço de partilha, onde as saudades são suavizadas pelas conversas em múltiplas línguas.

O papel do professor neste cenário é mais do que ensinar a língua portuguesa; é construir pontes entre culturas, mediar receios e dúvidas, e criar um ambiente onde cada aluno se sente valorizado. Nestas turmas, os professores ajustam as suas práticas pedagógicas às necessidades individuais, promovendo a aprendizagem através de projetos e atividades adaptados às capacidades de cada um. E, ao mesmo tempo, incentivam o diálogo aberto, ajudando os alunos a desenvolver competências linguísticas e sociais que os prepararão para uma vida em comunidade no país de acolhimento.

Mas será que o sistema educativo português está preparado para lidar com estas realidades? As turmas de acolhimento, enquadradas legalmente por normativas como o Decreto-Lei Nº 139/2012, e integradas em programas como o Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, têm mostrado resultados positivos. Contudo, o sucesso não depende apenas das leis ou dos programas, mas da capacidade de cada escola e cada professor em adaptar-se às especificidades de cada aluno.

O que estas turmas mostram, em última instância, é que a educação inclusiva é possível, mas requer dedicação, flexibilidade e, acima de tudo, uma visão de que todos os alunos são capazes de aprender, independentemente da sua origem ou das suas dificuldades iniciais. E se mais escolas adotassem este modelo de acolhimento? Será que não estaríamos a construir um sistema de ensino mais justo e equitativo?

As histórias de sucesso que saem destas turmas são a prova de que o desafio vale a pena. Cada aluno que, ao início, mal se atrevia a falar português, que lutava para acompanhar as aulas, e que agora domina a língua e se integra plenamente na escola, é uma vitória não só para o próprio, mas para toda a comunidade escolar. É a prova de que, com o apoio certo, todos podem sonhar e alcançar o sucesso académico.

No fundo, o que estas turmas de acolhimento nos ensinam é que, quando o ensino é inclusivo e focado nas necessidades reais dos alunos, não há barreiras que não possam ser superadas. Afinal, como dizia o professor Pedro D’Orey da Cunha, um bom professor é aquele que, com paixão, consegue transmitir aos seus alunos o fascínio pela descoberta. E, quando essa descoberta envolve a construção de uma nova vida num novo país, o impacto é ainda mais profundo.

* Formadoras do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro. Artigo publicado originalmente no site UA.pt.

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